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sábado, 21 de maio de 2011

Terra...

Foto feita por: Letícia Conde
Tirada de: USP - Campus I/São Carlos

Quando era pequena ateei as mãos à terra
e dentro dela construí meu sepulcro
ao mesmo tempo fui ficando mais velha
era como se eu fora todo o peso do mundo
numa contradição terminei meu calvário
e fui me tornando ainda mais pura
mais jovem e inocente
voltando ao estado de criança imatura
que saúda as plantas como num gesto pleno
de afeição e doçura...
quando eu era pequena
ateei as mãos à terra e cedi a ela toda minha fortuna
mas a mãe sábia que era
me devolveu a vida futura
vindouras sombras que havia de colher
formosos pastos que havia de deitar
calmas matas que havia de conhecer
selvagens forças que havia de dominar
e cresci com as mãos sujas
fartas de terra que nunca hei de esquecer
me espera aberta com meu sepulcro
que um dia eu haverei de preencher
quando eu era pequena dei as mãos para a terra
e ela tenra sempre está a me acompanhar
eu também fiz dela velha uma criança
ao ver nela meu próprio nascer e sacrificar.

Letícia Conde

*Baseado em poema de Manoel de Barros

Ouvidos do Vento

Foto feita por: Letícia Conde
Tirada de: USP - Campus I/São Carlos

Certa vez toquei os ouvidos do vento
e ele gemeu alto como cão esfomeado
suas orelhas eram imensas
e delicadas feito cristais
como estalactites que são moldadas pelo tempo
ressoava o meu roçar de dedos em todas as direções
pedi desculpas àquele elemento
e disse que meu lamento era só de não poder falar-lhe
de minhas alucinações sonoras
como quando o ouvia dentro de meus tímpanos
através dos moinhos que ele fazia
através das folhas que ele cortava
naquele zumbido fino de constrangimento
de quem passa e devasta uma vida
ou traz bonança aos sem sustento
carregando chuva e água fria~
eu somente sentia o acariciar daquele rebento
e ele me disse que me ouvia
sem que eu precisasse tocar os seus ouvidos
porque eram por si só ventosos
passíveis de serem escutados a qualquer momento
aqueles meus devaneios intrínsecos
ainda me lembro da vez em que toquei o olvido do vento...

Letícia Conde

*Baseado em poema de Manoel de Barros

Mar

Certa vez eu vi os olhos do mar
e ele sério me olhou a mim
então numa risada larga me fez correr pela orla
eram suas ondas seus dentes de marfim
brancos e calvos pensares
aquele ser me olhava manso
agora que a chuva adentrara
nossa conversa se tornara orvalhada
era manhã pelo que bem me lembro
e aquele sereno era quase como oração
ainda lembro do mar calmo comido e cheio
satisfeito com a refeição limpar dos dentes os vãos
fazia da areia paliteiro
ao depositar as conchas em sua extensão
ainda lembro
fechou os olhos e me falou certeiro
cuidado com os homens
eles desaprenderam a nadar
desaprenderam a andar
desaprenderam a correr
desaprenderam a voar
desaprenderam a ser gente
o homem não é mais homem
faz seca e jura que sertão vai virar mar
mas o homem não sabe ser humano
e o ser humano está cada vez mais a se afogar...
e de sua garganta cuspiu um ou dois corpos
eram egos inflados que pouco antes já estavam boiando
não eram carnes propriamente dizendo
mas as almas daqueles que se diziam soberanos
reis de fortunas e professores de conhecimentos
como era triste toda essa gente
ainda lembro do mar rindo
e me emprestando umas gotas de sua saliva
para que eu pudesse ir embora a chorar.

Letícia Conde

*Baseado em poema de Manoel de Barros.