Certa vez eu vi os olhos do mar
e ele sério me olhou a mim
então numa risada larga me fez correr pela orla
eram suas ondas seus dentes de marfim
brancos e calvos pensares
aquele ser me olhava manso
agora que a chuva adentrara
nossa conversa se tornara orvalhada
era manhã pelo que bem me lembro
e aquele sereno era quase como oração
ainda lembro do mar calmo comido e cheio
satisfeito com a refeição limpar dos dentes os vãos
fazia da areia paliteiro
ao depositar as conchas em sua extensão
ainda lembro
fechou os olhos e me falou certeiro
cuidado com os homens
eles desaprenderam a nadar
desaprenderam a andar
desaprenderam a correr
desaprenderam a voar
desaprenderam a ser gente
o homem não é mais homem
faz seca e jura que sertão vai virar mar
mas o homem não sabe ser humano
e o ser humano está cada vez mais a se afogar...
e de sua garganta cuspiu um ou dois corpos
eram egos inflados que pouco antes já estavam boiando
não eram carnes propriamente dizendo
mas as almas daqueles que se diziam soberanos
reis de fortunas e professores de conhecimentos
como era triste toda essa gente
ainda lembro do mar rindo
e me emprestando umas gotas de sua saliva
para que eu pudesse ir embora a chorar.
Letícia Conde
*Baseado em poema de Manoel de Barros.
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