Foto feita por: Letícia Conde
Tirada de: USP - Campus I/São Carlos
Quando era pequena ateei as mãos à terra
e dentro dela construí meu sepulcro
ao mesmo tempo fui ficando mais velha
era como se eu fora todo o peso do mundo
numa contradição terminei meu calvário
e fui me tornando ainda mais pura
mais jovem e inocente
voltando ao estado de criança imatura
que saúda as plantas como num gesto pleno
de afeição e doçura...
quando eu era pequena
ateei as mãos à terra e cedi a ela toda minha fortuna
mas a mãe sábia que era
me devolveu a vida futura
vindouras sombras que havia de colher
formosos pastos que havia de deitar
calmas matas que havia de conhecer
selvagens forças que havia de dominar
e cresci com as mãos sujas
fartas de terra que nunca hei de esquecer
me espera aberta com meu sepulcro
que um dia eu haverei de preencher
quando eu era pequena dei as mãos para a terra
e ela tenra sempre está a me acompanhar
eu também fiz dela velha uma criança
ao ver nela meu próprio nascer e sacrificar.
Letícia Conde
*Baseado em poema de Manoel de Barros
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