sábado, 21 de maio de 2011

PALAVRAS

"Veio me dizer que eu desestruturo a linguagem. Eu desestruturo a linguagem? Vejamos, eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar de debaixo de mim. Tira o lugar em que eu estava sentado. Eu não fazia nada para que a palavra me desalojasse daquele lugar. E eu nem atrapalhava a passagem de ninguém. Ao tirar de debaixo de mim o lugar, eu desaprumei. Ali só havia um grilo com uma flauta de couro. O grilo feridava o silêncio. Os moradores do lugar se queixavam do grilo. Veio uma palavra e retirou o grilo da flauta. Agora eu pergunto: quem desestruturou a linguagem? Fui eu ou foram as palavras? E o lugar que retiraram de debaixo de mim? Não era para terem retirado a mim do lugar? Foram as palavras pois que desestruturam a linguagem. E não eu"

BARROS, Manoel de. Ensaios Fotográfricos. Rio de Janeiro: Recordo, 2007.

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