Do escuro mundo saiu a cobra cega.
Chegou à superfície e não conseguiu voltar,
Aqui em cima tudo é duro, concreto.
Perdida se sentiu.
Sobre a calçada de pedras rastejava.
Um humano a viu...
O medo da víbora logo surgiu,
Com seu olhar repulsivo, pensou em matá-la.
A cobra não vê, mas seu algoz se aproxima,
Com uma pedra na mão e mira certeira.
Atingi a cabeça da cobra,
Ou será sua cauda?
A pedrada sentiu
De dor contorceu, virou,revirou.
Voltou ao escuro,
Em minutos morreu.
O homem foi embora.
O que será que ele pensa?
Sem nenhum veredicto, já lhe deu a sentença.
“Matei a serpente..., a justiça foi feita!”
Seu caminho seguiu, nem pena sentiu.
Para trás nem olhou,
A peçonha da boca escorreu...
Num dobrar de esquina, seu pensamento voou.
A cobra foi ele, que de repente atacou;
Cego de medo, nem raciocinou.
O ser ali presente era uma minhoca inocente,
Que um dia o homem de cobra-cega chamou.
Texto:
Professora Verônica Petenatti
Poema a partir da foto "Ser cobra-cega"
ResponderExcluirQuarto escuro, por onde espio-me...
Quem lhe roubou a última chama da lamparina
Dos sonhos, dos passos, das cercas de cera derretida
Escorrendo da imaginação...?
Quem ousou levar todos os meus consolos?
Monstro ingrato com garras no pensamento.
Este que me encerra na realidade de tão pequena ser...
Fora com meus dedos de alcançar um dia mais que a dor de agora...
Dentro, não é mais que o vendaval das coisas que me pediram
Fora, casa eterna de não ser em mim...
Brusco ladrão que ME levou a aurora de não ser eu mesma,
Mas um murmúrio apenas entre quimera e suspiro triste.
Flávia C. Gomes